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Shakespeare é Inevitável

Publicação: Revista Sobre - Ano I Edição 1 - 2011
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British Council

Durante as celebrações dos "400 anos de morte de

William Shakespeare" o ISB e o British Council Brasil, realizaram o projeto "Shakespeare Vive
nas Escolas".

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Hoje, vamos ao teatro para assistir a uma peça. Especialistas afirmam que, na Inglaterra, durante os períodos elisabetano e jacobino, as pessoas que acorriam ao Globe Theatre – o mais famoso teatro de Shakespeare – lá, iam para ouvir uma peça. A sonoridade e o significado das palavras eram particularmente atraentes para aquelas pessoas que viviam um momento de transição e de questionamento de seus valores enquanto a própria língua inglesa encontrava-se em um período de construção e afirmação. Antes disso, as únicas vozes que sobressaíam nos eventos voltados para a coletividade eram aquelas produzidas por anjos e demônios num Latim distante que ecoavam do monturo medieval e que agregavam ignorância, misticismo religioso e exploração da miséria humana. O período renascentista, porém, chegaria com a promessa de novos sons e novas vozes ressonantes de liberdade.
Na Europa Ocidental, as ações que determinavam o renascimento de uma nova era já haviam delineado seus profundos sulcos na terra batida e assolada pelo longo período de obscurantismo medieval, quando a Inglaterra da Rainha Elisabeth I começou a perceber os clarões das luzes resplandecentes da aurora da modernidade. Depois de um longo período de disputas intestinas a ascensão da dinastia Tudor ao poder, garantiu à Inglaterra uma relativa estabilidade permitindo o surgimento de atividades que contribuiriam para a sedimentação de seu desenvolvimento. Entre essas atividades estavam, principalmente, suas relações comerciais e, também a valorização de atividades intelectuais, entre as quais merece destaque aquela que gozava da preferência da grande Rainha Virgem, o teatro.
Parcialmente desvencilhado das moralidades medievais um novo teatro começava a surgir naquele momento. Repositório da expressão de toda a complexidade humana e sua consequente história, o teatro que os elisabetanos agora testemunham, transforma-se em importante referencial para a descoberta e construção de suas próprias identidades. E o grande nome deste novo teatro, precursor da busca inexorável da humanidade pelo conhecimento de si mesma é, sem nenhuma dúvida, William Shakespeare.
Antes de Shakespeare – afirma o crítico literário Harold Bloom – os personagens literários são relativamente imutáveis, planos, sem muita profundidade. Com Shakespeare, pela primeira vez temos os personagens se desenvolvendo através de transformações interiores pela própria capacidade (ou falta dela) e não pela dependência de vontades divinas e destinos inevitáveis. Bloom observa ainda, que tais transformações ocorrem porque, involuntariamente, os personagens escutam a própria voz, falando consigo mesmos ou com terceiros e ouvindo a si mesmos, acabam por trilhar o nobre caminho da individuação – e arremata dizendo que: nenhum outro autor, antes ou depois de Shakespeare, realizou tão bem o verdadeiro milagre de criar vozes, a um só tempo, tão distintas e tão internamente coerentes, para seus personagens principais, que somam mais de cem, e para centenas de personagens secundários, extremamente individualizados.
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Voltando aos súditos da Rainha que iam ao Globe para ouvir suas peças, nos perguntamos: que vozes eles esperavam ouvir naquele palco? Seriam suas próprias vozes reverberando naquele tablado com ressonância suficiente para provocar o despertar da consciência de toda uma era? Se sim, nesse sentido, a abrangência e importância da obra de William Shakespeare, não têm precedentes. Nunca antes o ser humano havia ocupado o espaço cênico em tal plenitude. Pela primeira vez apresenta-se no espaço de transcendências que é o palco, a realidade mais profunda da condição humana com suas misérias e alegrias, comédias e tragédias reconhecíveis na representação de sua essência universal. Shakespeare inaugura o grande teatro da mente, como Freud observaria mais tarde. Nem mesmo o Grande Teatro grego com seus personagens subordinados a indefectíveis destinos seria capaz de produzir vozes tão profundamente humanas e comprometidas com a imponderabilidade e incertezas que permeiam a matéria dos sonhos da qual somos feitos.
Pela primeira vez a humanidade tem diante de si um espelho inequivocamente polido pela abrasividade do real e nele é capaz de divisar, livre de distorções, a correta proporção das energias que movem e comovem o ser. Pela primeira vez a vida é apresentada como ela é, com a tragédia e a comédia delineando concomitantemente o tempo da existência. Assim, nas peças de Shakespeare a tragédia e a comédia coexistem como também em nossa vida diária; não é incomum vermos em um velório pessoas chorando sobre o caixão e na sala ao lado alguém contando piadas. Essa realidade profunda da vida permeia suas peças e seus personagens. Como observa a atriz e diretora teatral Verônica Fabrini do Instituto de Artes da Unicamp em sua dissertação de mestrado, ‘os padrões dos personagens de Shakespeare persistem, por isso ele tem sido compreendido por séculos’.
[2]
Por sua característica essencial, a voz arquetípica que naquele palco-mundo ecoou, continua a ressoar em nós até os dias de hoje, corroborando o que Ben Jonson, colega de Shakespeare, escreveu em 1623 na elegia do Primeiro Fólio: ‘ele não foi para uma época, mas para todas as épocas’. Nenhum autor do mundo se iguala a Shakespeare neste quesito. Em 1864, exatamente trezentos anos após o nascimento de Shakespeare, Victor Hugo exilado na ilha de Jersey iria compará-lo ao mar em profundidade e extensão, enquanto seu filho François-Victor Hugo preparava a primeira tradução para o francês das Obras Completas de Shakespeare e ele escrevia a biografia[3] na qual podemos ler “quanto ao real, insistimos nisso, Shakespeare o extravasa; por toda parte carne-viva!”. Alguns anos antes, Göethe afirmaria aos precursores do romantismo “a primeira palavra que li de Shakespeare, tornou-me dele cativo para toda a vida.” E ainda, nosso grande Machado de Assis, que faria o Bentinho de sua Capitu reconhecer-se em Otelo de Shakespeare, viria propagar sua grandeza nas seguintes palavras: “O Império Britânico passará, a república Norte-Americana passará, mas Shakespeare permanecerá. Quando não se falar mais inglês, falaremos Shakespeare.”
Dessa forma, Shakespeare continua a falar a todos nós. Na verdade, nenhum outro poeta jamais encontrou mais formas linguísticas com que reproduzir as reações humanas do que Shakespeare e nem outro, observa Bloom, tornou-se tão popular e tão universal a
ponto de substituir a Bíblia na consciência popular. Suas palavras continuam a serem ouvidas e mais do que isso, com seus personagens, elas desceram do palco e passaram a pautar as conversas nos espaços reais das nossas vidas. Nós, os atores, mais do que ninguém somos as testemunhas vivas disso. Em uma entrevista publicada no New York Times o ator Jude Law, na época, enfrentando o desafio de viver Hamlet nos palcos observou: “nossa linguagem é toda influenciada por frases desta peça [Hamlet], e nós as usamos porque não conseguimos, em quatrocentos anos, encontrar uma maneira melhor de dizer as coisas”.
[4]
Assim, nos tempos modernos, em uma sociedade dominada pela imagem, mesmo que você não vá ao teatro para ouvir Shakespeare, saiba que ele é inevitável. Por todos os lados pululam palavras e expressões criadas por Shakespeare ou, que já existiam, mas alcançaram a popularidade através das falas de seus personagens sobrevivendo em todas as línguas através de traduções literais ou mesmo aproximadas, como por exemplo, “nem tudo que reluz é ouro” retirada de O Mercador de Veneza, “meu reino por um cavalo” e “passar o carro na frente dos bois”, ambas de Ricardo III, ou ainda “o ciúme é um monstro de olhos verdes” e “o que não tem remédio, remediado está” de Otelo, e “a justiça tarda mas não falha” de Antônio e Cleópatra, assim por diante. E você continuará falando Shakespeare ao dizer “isso parece grego para mim”, “pois não faz sentido” e “nem lá nem cá” se “vai num pé e volta no outro”, ou você pode “sumir no ar”, “em um piscar de olhos”, se parecer “mais pra lá do que pra cá” você vai “franzir a sobrancelha” e insistir num “jogo limpo” mesmo “sem pregar o olho” durante a noite dizendo tudo “sem fazer cerimônias” pois acaba “rindo de si mesmo” por cometer “um pequeno deslize” sabendo que “dias melhores virão” lá no “paraíso dos tolos” onde se diz “bons dias aqueles” e pra lá voltaria de “mala e cuia” se não soubesse que “o jogo acabou” pois “cedo ou tarde a verdade vem à tona” e você “cai de cara no chão” e fica “rangendo os dentes” se “o diabo cobra seu quinhão” daquele “vilão desalmado” que é o “próprio diabo encarnado” que te deixa “morrendo de medo”, “piscando como um idiota” e “calado como um túmulo” mesmo sabendo que “o diabo não é tão feio como pintam” e por isso grita “ai meu Deus” pedindo “pelo amor de Deus” para continuar “sem perder o rumo” nesse “admirável mundo novo”[5].


Ronaldo Marin
Diretor do Instituto Shakespeare Brasil

Doutor pelo Instituto de Artes da Unicamp

Referências

[1] Bloom, Harold. Shakespeare: a invenção do humano, Ed. Ojetiva, 2001
[2] Rocha,Veronica Fabrini M. de Almeida. O amor é um animal de duas costas: um estudo sobre a encenação de Otelo. Biblioteca da Universidade Estadual de Campinas.Instituto de Artes.Dissertação de mestrado.1996.link para acesso: http://cutter.unicamp.br/document/?code=vtls000103767
[3] Hugo, Victor. Shakespeare.Editora Campanário sd. O Oceano Shakespeare in O Mundo é Um palco_blog: http://omundoeumpalco.zip.net/arch2009-03-15_2009-03-21.html
[4] Law, Jude_Hello Sweet Prince_entrevista: http://www.nytimes.com/2009/09/06/theater/06lyal.html
[5] Shakespeare quotes: http://www.william-shakespeare.info/william-shakespeare-quotes.htm